Rua Tocantins, número duzentos
Aristeu Nogueira SoaresE disse-nos Jesus: Confessai-vos uns aos outros!
Eu residi neste endereço na infância e noutros das imediações como Rua Colômbia, Rua 31 de Março, dentre outros – a maioria nos bairros periféricos de Santa Teresinha e São Judas Tadeu, em Rérigueri, é claro.
Não sei o porquê de tantas mudanças, mas certamente tinha a ver com a nossa condição de pobreza que pra uma criança pouco importava.
Não tínhamos energia elétrica e outras regalias implantadas pela turma do Perón, tão rotineiras nos tempos atuais. Cestas básicas, bolsa família, PETI? São Luis Inácio, quanta proteção aos pobres que assim sempre teremos conosco!
Uma coisa que me incomodava era a porta da privada feita de saco de linhagem – de vida privada nada se tinha. Lembro-me de ter sido flagrado uma vez, pela minha mãe, numa volúpia secreta desenfreada.
O banho, também ostensivo e escancarado, era de bacia com água fresca da cisterna. Uma cama de solteiro, com colchão de palha seca de milho, era dividida entre dois irmãos, independente de sexo e idade.
O fogão era à lenha e o abastecíamos de gravetos apanhados no cerrado, ali do lado. Hoje está tudo urbanizado, o mato ficou distante e o asfalto enterrou meus rastros na poeira. Acho que foi o Neiton de Paiva Neves que iniciou o progresso naquele lugar. Eureka! Era isso que nos fazia mudar... O progresso ia chegando, os aluguéis aumentando e acho que até pulamos a linha do trem, lá pras bandas do Moinho de osso, ou era curtume? Ou ambos?
Bom, o que eu queria dizer mesmo, chega de enrolação, é que tínhamos uma vizinha que movimentava a rua, principalmente à noite: Dona Maria Mandioca... Uma cafetina magra de dar dó também.
O prostíbulo das mulheres-dama tinha um som estupendo e atendia pelo nome de toca-disco ou vitrola. O Amado Batista não tinha vida fácil ali, cantava como nunca se vinil.
Tentando encurtar a história devo confessar que não sou filho legítimo delas, mas cresci na zona do baixo meretrício; custei a traduzir o que era ZBM, acho que não conhecia as letras.
A cerveja acabava, o tira-gosto minguava e quem tinha pernas ligeiras pra ir buscar mais, lá no Zoroastro, na Mato Grosso, pra estocar as primas? O Teteu. Gente, que gracinha, eu era assim chamado.
Nas idas-e-vindas, com os banhos de assento das tias do lado de fora, os olhinhos curiosos acabavam por desvendar as curvas da perdição, o ninho do passarinho e o disparar do prazer.
Os policiais apareciam no local, não era a trabalho, mas a gente corria. Eles demoravam demais e normalmente saiam amassados, devido o fiscalizar dos corpos de delito.
Independentemente da proximidade de uma casa da luz vermelha, a atividade sexual começava cedo, primeiro solitariamente e depois dividindo experiências e vice-versa, e troca-troca.
Não sei como hoje acontece, pois não existem mais tanto escurinhos, nem moitas, nem zonas francas.
A carência era grande pra todo lado. Lembro-me de uma rameira que me cobrou, pelos serviços prestados, um maço de cigarros Master ponteira. Credo, pior que Arizona e talo de chuchu!
Pois bem, a tal dita profissão não é reconhecida, é a mais antiga das atividades femininas e a mulher, mesmo como objeto vil, será, pra mim, sempre uma mercadoria de primeira. Viva a mulher! Primeiro as damas...
O que me fez feliz e que até paguei satisfeito, o Estatuto, a Lei, num foco moderno, me chamaria de infeliz vítima e as vagabundas é que me indenizariam...

Doutor, confesso-lhe que não encontrei na Bíblia a sua frase epigrafada, encontrei um mais próximo, mas me foi possível entender as palavras do amigo Peron quando o defendeu dizendo que o senhor era um vencedor! Evidentemente para frustração da Dona Maria Mandioca que creio perdeu um cliente para as concorrentes mais sofisticadas e bem mais ao nível de exigência desse vencedor. Aliás, também aquele amigo (agora fora do mercado consumidor) já me dissera que esses redutos daquela raiz tuberosa (não da família das euforbiáceas) já não mais existem depois da evolução da cidade, mas ainda se produzem boas farinhas!
ResponderExcluirAbraço. Natal
Caro Fernando,
ResponderExcluirBisbilhoteiro de dicionários, bíblias, tratados de botânica, cartas magnas e vasto império virtual,
Tem toda razão, o versículo atribuído ao Cristo pertence a Tiago, amigo e colaborador d’Ele, a quem foi passado procuração adjudicatória, ei-lo:
São Tiago, capítulo 5, versículo 16 : Confessai os vossos pecados uns aos outros, e orai uns pelos outros para serdes curados. A oração do justo tem grande eficácia.
Na verdade não me julgo vencedor, mas deixei de ficar muito embaixo da pirâmide social. Há muito deixei de ser cliente da devassidão e, uma vez lá, não existe categoria - são todos uns putos. Não digo que seja ruim, mas promiscuidade nos isola de inúmeras virtudes.
Nas minhas andanças pude comprovar, porém, que falta de puteiros em algumas localidades faz com que as famílias se degringolem.
Explico. Em uma pequena localidade mineira havia dois puteiros. Um prefeito, dito moralista, pôs tudo pra correr. O fenômeno é que os homens, agora sem ter onde picar cartão, começaram a desfrutar das meninas moças em geral, inclusive a filha do prefeito.
Dizem que este tipo de amor onde bate fica. Mães-solteiras, biscates gratuitas, orgias desenfreadas proliferaram ali até que chegou os homens da barragem e pouco trabalham tiveram pra transformar o local em Sodoma.
Quando o horizonte esparramar o cheiro de enxofre e a cidade arder em chamas, não olhe, pois poderá tornar-se uma estátua de sal.
E Tiago disse: 1.16 -
ResponderExcluirConfessai as vossas culpas uns aos outros, e orai uns pelos outros, para que sareis...
Encontrei também em Tiago o seguinte: 1.14 - Mas cada um é tentado, quando atraído e engodado pela sua própria concupiscência. 1.5 - Depois, havendo a concupiscência concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, sendo consumado, gera a morte.
E assim os homens das barragens, longe das virtudes de suas famílias e próximas da família do prefeito, engodados pela sua concupiscência, que produz desordem dos sentidos e da razão, são a prova de que o mal é da natureza humana, mas são meios para atingirem os objetivos e destinos de suas almas. Isso para dizer que o “caráter de um homem é forjado nas intempéries da vida, nos seus entrechoques ou embates” e por isso cada um tem a experiência que o torna especial e vencedor.
Mesmo as putas são agentes sociais importantes e que todos negam suas virtudes ou nem as querem enxergar, seus clientes são testemunhas, mas como também estão forjando suas personalidades, uma vez liberadas de suas concupiscências, um dia também podem ser vencedoras como as borboletas que encantam a natureza, mas que um dia foram larvas... E assim a farinha é o ingrediente da vida de muitos em direção aos píncaros da glória...
Abraço renovado.
Natal
Pronto, iluminei-me: Sou um grandissíssimo pecador e, ainda por cima, mesmo não sendo filho delas, posso ser pai de algum dos filhos delas.
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