Amargo regresso
por Marília Alves Cunha“Nós vos pedimos com insistência: não digam nunca “isto é natural” diante dos acontecimentos de cada dia, numa época em que reina a confusão, em que corre sangue, em que o arbítrio tem força de lei, em que a humanidade se desumaniza, não digam nunca “isto é natural”, para que nada possa ser imutável.”
(Bertold Brecht)
Cúmulo do otimismo ou excesso de alienação daqueles que afirmam: não existe crise, nem desemprego, nem violência. Para alguns, Uberlândia (cidade que adoro) é o paraíso na terra e está blindada contra qualquer coisa que atente contra nosso bolso e paz, apesar do cenário de incertezas que se descortina ao mundo. Criminosos? Vêm de outros lugares e a polícia federal vai prender todos. Maravilha!
Infelizmente o que nos chega aos olhos e ouvidos e o que vivenciamos contrariam bastante tal otimismo. Dia desses, por ex., fui a Brasília visitar parentes. Voltei de ônibus, no horário das 23.55. A rodoviária, que não freqüentava há muitos anos, causou-me espanto. É inacreditável que juntinho dos palácios, das mansões maravilhosas em torno do Paranoá, das monumentais construções, pudesse existir contraste tão fulminante. A rodoviária de Brasília está em franca decadência. Impossível usar os banheiros, tomar um lanche, sentar numa cadeira, tal a sujeira e o desleixo de tudo. Chamar um guarda, um policial? Impraticável, nenhum a vista. A princípio, achei a situação incrível. Depois, com mais vagar, raciocinei: Presidente anda de ônibus? Senadores, deputados, políticos em geral, andam de ônibus? Empresários ricos andam de ônibus? Claro que não! Rodoviária é para o povão e para povão “tuta-e-meia”, entendem? Dizem que o aeroporto de Brasília é uma maravilha...
Iniciamos a viagem de regresso a Uberlândia. Exatamente às 2.30h da madrugada, o ônibus desequilibrou-se violentamente e parou. Estávamos sendo vítimas de roubo à mão armada e vivemos horas de puro terror nas mãos de assaltantes, sendo agredidos e ameaçados de morte a cada instante.
Depois de horas de escuro, medo e aflição, chegamos a Catalão. O dia já estava alto. Ninguém da empresa (Real Expresso) apareceu para prestar assistência. A polícia rodoviária estava nos seu posto, pronta a fazer os BO. Tive uma impressão estranha que aos olhos de todos (menos das vítimas) tudo parecia natural. O ônibus estacionou na beira da estrada e ficamos lá, debaixo de uma chuva torrencial, tentando reunir alguns pertences que, depois de rejeitados e despejados das malas pelos criminosos, foram devolvidos de qualquer jeito para o porta malas. Estávamos todos cansados, molhados, humilhados, revoltados, impotentes diante do terror, do descaso, da insegurança. Inacreditável que tudo aquilo tivesse acontecido perto de Brasília, nas barbas do Poder.
Depois de roubada e agredida moralmente, não consigo exibir um sorriso vitorioso pelo fato de estar viva. “Foram-se os anéis, ficaram os dedos”- não é possível conformar-me com isto. Estes acontecimentos não são naturais e não podem ser parte do nosso cotidiano. E depois que tudo tornar-se imutável, nada mais nos restará fazer...

Minha cara Marília.
ResponderExcluirQue acontecimento atróz e repugante você teve que enfrentar.
Tudo isto é por culpa única e exclusiva da Polícia.
Senão vejamos: o que assistimos diariamente nas TVs ? Aquela propagandinha sem vergonha e ordinária da mesma no que diz respeito: ao ser assaltado, não reaja. Faça o que o meliante exigir e tudo ficará bem.
Perguntamos: por que eles não dizem nas propagandas sem vergonhas e ordinárias que fazem: armem-se. Tenham sempre à mão uma arma potente, que vocês poderão usá-la como se fossem pegar sua carteira para entregar ao ordinário. Ao ver a arma, você já terá efetuado os disparos e ele, "babau", já era.
Mas e nesse caso de assalto a ônibus, como ficamos então ?
Fácil a resposta, a empresa deverá ter no mímino dois guardas fortemente armados que quando o ônibus for interceptado, eles já soltarão rajadas de metralhadoras sobre os cretinos dos bandidos que eles não verão do que e como bateram com as dez.
Já que o desarmamento foi por terra no plebiscito, vamos fazer um para regularizar o porte de arma por parte dos cidadãos como nós.
O "velho oeste" está de volta.
Quero para meu uso particular, uma 12 e uma 9 mm.
devidamente regularizadas, e os cretinos que se cuidem.
Vai ficar bem mais difícil sermos assaltados.
Um abraço solidário.
Peron Erbetta.
Ailiram,
ResponderExcluirToda Marilia eu chamo assim, pois me lembra algo doce dos meus tempos de criança... as balas. Minhas doces balas noutro sentido estão agora perdidas me procurando...
O Peron também faz-me lembrar destoutras por causa do sobrenome que parece Beretta, uma marca de pistola que não são aquelas dágua.
Morei 24 anos em Brasilia e não pretendo mais voltar, pois foi meu foco de uma opinião sobre tudo que não desce bem.
Em minha opinião, Brasília, praticamente, deveria estar no sopé de um vulcão, porque, convenhamos ela é banhada por um mar de lama!
A Rodoviária eu apelidei de Fedoviária e o lanche lá servido de avalanche, pois te desmorona. Mas tudo isso é superável.
O problema é que todos utilizam Brasília como algo descartável, temporário, um mandato, um tempo... Ninguém ama com fé a terra que se apropria.
Quem amava aquela cidade já morreu... Até hoje Brasília está a descoberto e ninguém cobriu este cheque.
Brasília é cheia de geometria, mas não desce redondo. Custo de vida muito alto. A princípio você é tratado ali como um corrupto, alguém que está abarrotado de dinheiro fácil.
Marília, relaxa. Você foi assaltada num ônibus e bem piores são aqueles que traçam plano piloto maquiavélico.
Brasília, dizem, ter formato de avião, mas não dou asa pra esta idéia; pra mim aquilo é uma cruz em que todos nós brasíleiros temos que carregar até o suspiro final.
O plebiscito das armas de nada adianta, pois "eles" nos matam na unha, numa simples canetada.
Engraçada a língua portuguesa, né Marília, você não via polícia na rodoviária imunda e enquanto você inunda, na via, havia polícia rodoviária que não te via.
Marília, se lá for a Brasilia novamente, mande lembranças por mim.
E por falar em Bertold Brecht, ele disse também: "Quando o delito se multiplica, ninguém quer vê-lo." Ou seja: não é que os assaltos são fatos naturais, apesar de ocorrerem desde o começo do mundo. Disse Bertold também: "As revoluções se produzem nos becos sem saída”, para talvez dizer que muita gente está sob pressão, buscando fazer algo ainda que ilegal e cruel para se manterem vivas, ou que a sobrevivência está difícil. Mas como resolver isso: e Bertold disse: "Se governar fosse fácil, não seriam necessários espíritos iluminados." Precisamos de gente instruída na segurança, e não basta a sociedade pedir solução para gente sem instrução pois vão entender simplesmente que querem que eles, policiais, matem esses bandidos e essa é para eles a única solução para um sistema que devolve os criminosos para as ruas. Mas temos a esperança de saber que tem gente boa na segurança e temos mais essa de Bertold: "Há homens que lutam um dia e são bons. Há outros que lutam um ano e são melhores. Há os que lutam muitos anos, e são muito bons. Mas há os que lutam toda a vida, esses são os imprescindíveis." Mas não tenhamos ilusões sobre as possíveis e imediatas soluções para o fim dos assaltos sem antes resolvermos os problemas de educação, saúde e economia, afinal talvez por causa de barriga vazia Bertold dissera: "Primeiro comer, a moral, depois." Mas não desista de Brasília e peça aos políticos para mandarem para cá somente gente honesta e de bons costumes e saiba que a Unesco declarou que essa cidade é Patrimônio Cultural da Humanidade! Afinal, seu assalto nada tem com Brasília, que lhe recebeu muito bem, mas a jurisdição Goiás deveria prestar as contas a você Marília!
ResponderExcluirEnfim, solidário e tentando ser consciente!
Abraço. Natal